Com a subida ao poder
de Washington Luís, em 1926, a situação do
Brasil continuou a mesma de antes. As
fraudes eleitorais e o "voto de cabresto"
( pelo qual o eleitor era obrigado a votar
em determinado candidato ) faziam os
deputados e senadores. As oligarquias
mandavam no país através da "política dos
governadores". O predomínio dos grandes
estados - São Paulo e Minas Gerais -
contribuiu para aumentar o
descontentamento que sacudia o povo. A
causa externa que ajudou a iniciar a
revolução foi a grande crise econômica que
se abateu sobre o mundo em 1929.
Após a Revolução de
1930, para governar o Estado de São Paulo
em caráter provisório foi nomeado um
secretariado composto por paulistas. Sua
direção foi entregue a José Maria Whitaker,
com o cargo de secretário da fazenda.
Como delegado militar do governo
provisório no Estado foi nomeado o capitão
João Alberto Lins de Barros.
Ora, João Alberto não era paulista: era
pernambucano e um dos principais
representantes do tenentismo. Tinha
grandes poderes no cargo que ocupava,
geralmente passava por cima do
secretariado, interferindo em seu governo
e enfraquecendo-lhe a autoridade.
Diante da atitude de
João Alberto, o secretariado pediu
demissão coletiva, após governar somente
por 40 dias. Isso elevou João Alberto ao
cargo de interventor em São Paulo, com
enormes poderes.
A situação se agravou, gigantescos
comícios foram realizados.Manifestantes
incentivavam o povo paulista a
colocar-se a favor de um interventor
"paulista e civil" e da constituição.A
situação em São Paulo era de aguda
crise.
Inconformados com a
situação, os paulistas exigiam de
Vargas uma constituição(conjunto de
leis que regem uma nação) para o
Brasil, da qual estavam privados desde
1930.Como todas as outras Leis
dependem da constituição, e só podem
ser feitas de acordo com ela, nem os
paulistas nem os brasileiros em geral
tinham garantido os seus direitos,
estando portanto sujeitos a toda sorte
de arbítrios, o principal inimigo da
liberdade.
TIROTEIO MATA ESTUDANTES
Diante disso, nova
revolução começou a ser organizada em
São Paulo, com todo o povo do Estado a
seu favor.
Na noite de 23 de maio de 1932, um grupo
de populares saiu da Praça do Patriarca
e se dirigiu para a sede do Partido
Popular Paulista (PPP), favorável a
Getúlio Vargas, na Praça da República.
Dentro do prédio, os legalistas
resistiram. Como os revolucionários não
conseguiam entrar, chegaram duas escadas
para que populares invadissem. Um jovem
subiu e tomou um tiro. Mais quatro
tentativas frustradas, resultando em
cinco mortos: Martins, Miragaia, Drausio,
Camargo e Alvarenga, o último faleceu
meses depois.Esse episódio praticamente
da origem ao movimento de 1932.
No dia seguinte ao tumulto, num jantar
no restaurante Posilipo, foi fundado o
MMDC, uma organização civil que passou
a atuar na clandestinidade, e exerceu
importante papel na organização e apoio
e treinamento aos revolucionários
paulistas no episódio de 1932.
Com o afastamento,
do general Bertoldo Klinger, bem como
a sua reforma, do comando da região,
os revolucionários resolveram iniciar
o levante. Assim sem estar bem
preparados, rebentou a revolução
constitucionalista de 1932. A rebelião
armada começa em 9 de julho e as
tropas rebeldes ocupam ruas de São
Paulo, com apoio da imprensa e da
população. Seus chefes militares eram,
além do general Klinger, o coronel
Euclides de Figueiredo, e o general
Isidoro Dias Lopes.
O Estado de São Paulo dava início a
luta por uma nova Constituição para o
Brasil, um movimento que envolveu
desde as oligarquias até crianças e
mulheres, deixando marcas profundas em
todos aqueles que dela participaram.
A
DIFÍCIL SITUAÇÃO DOS PAULISTAS
Desde o começo, a
precipitação da revolta provocou a esta
inúmeras dificuldades.
Nos arsenais revolucionários havia
apenas uma centena de tiros. E pouco
mais de 40.000 fuzis e metralhadoras
leves. Os paulistas encomendaram então,
às pressas, nos Estados Unidos da
América, armas e munições no valor de um
milhão e meio de dólares.
Entretanto, o governo norte-americano só
permitiu que fosse vendida pequena
quantidade daquele material, por não
apoiar a revolta de São Paulo.
Mas até essa
pequena quantidade se perderia:
trazida pelo iate Ruth, foi
apreendida pelo governo provisório ao
chegar ao Brasil. O mesmo aconteceu
com o navio Jaboatão, cuja
tripulação tentou entregar aos
paulistas 50 canhões antiaéreos vindos
do exterior.
Outros problemas
surgiram para os revolucionários
paulistas. Contavam eles com a adesão do
Rio Grande do Sul, de Mato Grosso e de
Minas gerais à causa, além de outros
estados onde a conspiração tinha
ramificações. Mas este apoio não veio.
João Alberto, chefe
de polícia do Distrito Federal,
conteve firmemente as manifestações
cariocas favoráveis a São Paulo. Em
Mato Grosso, os 5.000 homens antes sob
o comando do general Klinger, tiveram
que ficar sustentando a luta contra os
que se opunham ao movimento. No Rio
Grande do Sul, o interventor Flôres da
Cunha ficou ao lado de Getulio Vargas.
E em Minas Gerais, o ex-presidente
Artur Bernardes não conseguiu
conquistar a milícia mineira para a
causa revolucionária.

Alguns erros
decisivos foram cometidos pelos
paulistas. O maior de todos foi o de não
terem dirigido imediatamente suas forças
para o Rio de Janeiro, cuja guarnição
dava sinais de aderir ao levante.
Em vez disso, os revoltosos esperaram
que o governo provisório deslocasse as
próprias forças até o Vale do Paraíba,
ali fixando a luta. O terreno foi
disputado palmo a palmo entre paulistas
e legalistas, o que não permitia
vitórias decisivas.
De todos os pontos do país foram
enviadas tropas contra São Paulo. O
pretexto de alguns interventores era de
que seus Estados lutariam contra a
revolução paulista para evitar que São
Paulo se separasse do resto do país.
"Eles alegavam que São Paulo faria uma
república italiana". Em 1932, dos 7
milhões de habitantes de São Paulo, mais
da metade era de origem italiana. Para
eles a luta era em defesa da unidade
nacional.
Com argumento desse tipo, os
interventores conseguiam grande números
de voluntários para lutar contra os
paulistas.
SÃO PAULO NÃO SE RENDIA
São Paulo, mesmo
assim, não se rendia.O fator fundamental
da força dos constitucionalistas estava
no apoio da população. Cerca de 60% do
exército constitucionalista era formado
por voluntários não convocados. Do lado
do exército de Vargas, boa parte era
composta por mercenários pagos. Entre os
voluntários, estavam os escritores
Monteiro Lobato e Mário de Andrade, que
fizeram campanhas a favor dos
constitucionalistas em rádios de São
Paulo.
São
Paulo Fazia prodígios para sustentar a
luta, movimentando toda a sua indústria
num esforço de guerra.
A Escola Politécnica de São Paulo foi
transformada num autêntico arsenal de
guerra. No então Laboratório de Ensaios
de Materiais (LEM) da Escola Politécnica
de Engenharia foi criado o Departamento
Central de Munições (DCM), que contou
com o engajamento de Setecentos e
quarenta engenheiros e trezentos e
quarenta técnicos auxiliares e inúmeros
químicos trabalhavam incessantemente.
Fabricavam-se munições de infantaria,
morteiros leves e pesados, bombas,
granadas de mão, lança-chamas, máscaras
contra gases. Em Piquete, havia uma
fábrica de pólvora. Em Silveiras, os
paulistas chegaram a derrotar as tropas
governamentais no início de setembro.
Trens e automóveis foram blindados;
canhões pesados, montados nas vias
férreas. O porto de Santos foi minado e
as oficinas desdobravam-se na
recuperação de armamentos.
Entre as armas fabricadas pelos
revolucionários paulistas, a mais
eficiente foi o morteiro "Major
Marcelino", que ficou conhecido como
"MMM". No primeiro teste feito com este
morteiro morreram seu inventor, major
Marcelino, e o coronel Júlio Marcondes
Salgado, ficando ferido o próprio
general Klinger.
No entanto um
engenhoso recurso utilizado pelos
paulistas na revolução ganhou destaque
pela sua criatividade, foi a
matraca , que recebeu o apelido de
"o cavalo de tróia paulista". O
aparelho era composto por uma lâmina
de aço em contato com uma roda
dentada. Girando a roda em grande
velocidade, o atrito com a lâmina
provocava tremendo ruído, semelhante
ao de metralhadora ao disparar. Isso
causava intenso pânico no inimigo,
chegando a conter por vinte dias o
avanço das tropas inimigas.
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A importante
participação das mulheres
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Milhares
de pessoas de todas as classes sociais
doavam pratarias, jóias e alianças para
ajudar financeiramente a revolução.
Organizações civis
como os MMDC, o Sato ( Serviço de
Abastecimento das Tropas em Operações
) e Casa do Soldado forneciam fardas,
assistência, alimentação e tratavam do
alistamento de voluntários. Todo o
Estado, unido, trabalhava
febrilmemente para a vitória da causa
paulista.
SÃO PAULO SE RENDE, MAS VENCE
Isso, contudo não
bastou. De todos os lados, as forças
paulistas eram assediadas pelas tropas
do governo federal. Para completar o
cerco, a esquadra bloqueou o litoral.
Para não reconhecer a derrota antes do
tempo, a ordem do comando revolucionário
foi "durar", isto é, resistir a qualquer
preço.
A esperança de
adesão dos outros Estados dissipou-se
totalmente com a prisão do líder
gaúcho Borges de Medeiros e do mineiro
Artur Bernardes, ambos partidários do
levante paulista.
Borges de Medeiros
foi preso em combate no interior do Rio
Grande do Sul, quando tentava resistir,
com 8 companheiros, a 700 milicianos das
tropas legalistas.
Na Bahia, 500 estudantes foram presos
pelo exército quando se manifestavam
favoravelmente aos paulistas. Em toda
parte os simpatizantes da causa paulista
eram contidos.
Com 12.000 soldados regulares e 60.000
voluntários, dispondo de apenas 8
aviões, os paulistas não podiam lutar
contra o resto do Brasil, que enviou
nada menos que 100 mil soldados para
combater os paulistas.
Foi reconhecendo
isso que o comandante da Força Pública
Paulista, coronel Herculano de
Carvalho, resolveu fazer a paz em
separado. Rendeu-se ao governo
provisório a 29 de setembro de 1932,
surpreendendo e irritando grande parte
dos paulistas.
A situação piorava
dia a dia. O general Klinger, obrigado a
admitir a inutilidade da luta, ordenou a
deposição das armas. A capitulação se
deu a 1º de outubro. Cerca de 135 mil
paulistas lutaram incansavelmente por
três meses. No dia 2 de outubro daquele
ano, sem armas, sem munição e sem o
apoio de outros Estados, São Paulo foi
obrigado a render-se às forças de
Vargas. A rendição dos paulistas foi
assinada em Cruzeiro no dia 2 de
outubro.Segundo o historiador Prof.
Jeziel de Paula (Imagens Construindo a
História, publicado em novembro de
1932), o número de mortos é seguramente
maior do que as perdas brasileiras
durante a campanha da Força
Expedicionária Brasileira na Segunda
Guerra Mundial. Oficialmente os
constitucionalistas tiveram 634 mortos
em combate. "Mas, seguramente, esse
número deve ficar em torno de mil", diz
Paula. "O número de feridos chega a
impressionar: somente na Santa Casa de
São Paulo deram entrada 1.273 soldados
feridos", conta o historiador, que
estima o número de feridos em pelo menos
3 mil.
Os principais chefes
da revolução foram detidos e obrigados a
exilar-se na Europa: assim, não poderiam
concorrer as eleições nem votar.
Entretanto, embora
derrotada nas armas, a revolução
paulista conquistou todos seus
objetivos. E começara a conquistá-los
logo ao iniciar-se.
No mesmo dia em que
rebentou o levante, Getúlio Vargas
decidiu nomear a comissão de
constitucionalização. Em 25 de julho
ordenou o alistamento eleitoral. Depois,
ao convocar a assembléia constituinte,
mostrava que aos vencidos caberia a
vitória final.
Finalmente, com a revolução de São
Paulo, o movimento tenentista entrou em
franco declínio.
SÃO
PAULO TINHA RAZÃO
Em 1995, o governo publicou a Lei
Federal nº 9.093/95, que autorizava cada
Estado a adotar uma "data magna", ou
seja, uma data importante para sua
história. Em 1997, o então governador
Mário Covas escolheu o dia 9 de julho e,
com a Lei nº 9.497, institui feriado
estadual nesta data.
Todo dia 9 de julho
São Paulo festeja O "Dia do Soldado
Constitucionalista", mas o dia 23 de
maio de 1932 também foi determinante
para os revolucionários. Foi neste dia
que o povo saiu as ruas, com o
objetivo de lutar pela constituição, e
é também o dia que se comemora o "Dia
da Juventude Constitucionalista". Ele
lembra a participação dos jovens no
movimento e, principalmente, os quatro
estudantes vítimas da repressão
simbolizados na sigla MMDC.
Martins,Miragaia,Drausio
e Camargo.
SOCIEDADE DE VETERANOS DE 1932-MMDC
Anos após o término
dos combates, os participantes da
revolta formaram a Sociedade de
Veteranos de 1932 - MMDC, que veio a ser
oficializada somente em 1954. Entre as
diversas atividades promovidas
anualmente pelo grupo está a escolha dos
quatro membros do comando do "Exército
constitucionalista". cargo simbólico com
mandato de um ano. Para 2001, foi
escolhido Geraldo Pires de Oliveira, de
86 anos.
Segundo a sociedade, 400 ex-combatentes
estão vivos.
Uma das funções do grupo é zelar pelo
Monumento Mausoléu do Soldado
Constitucionalista de 1932, no
Ibirapuera. O museu abriga fotos,
documentos, livros, objetos e recortes
de jornais referente à revolução. A
associação também organiza e está
presentes em datas importantes, como 23
de maio, 9 de julho (início da
revolução) e 2 de outubro (fim dos
combates).
O obelisco do Ibirapuera é uma homenagem
à Martins, Miragaia, Drauzio e Camargo,
mortos no dia 23 de maio. O obelisco
simboliza uma espada fincada, ferindo o
coração ( simbolizado pela praça ) do
Estado de São Paulo.
Após
a Revolução de 32 , a bandeira que
apenas era um símbolo de São Paulo
passou a ser a bandeira oficial. O mapa
do Brasil na bandeira simboliza a luta
dos paulistas pelo Brasil. As quatro
estrelas representam os pontos cardeais.
As listas brancas representam o dia e as
listas pretas representam a noite, os
paulistas, de dia ou de noite e de
qualquer lugar, defendem o Brasil com
seu sangue, representado pela cor
vermelha envolvendo o mapa.
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